{"id":19,"date":"2022-08-21T14:41:00","date_gmt":"2022-08-21T17:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/opequenofugitivo.com.br\/?p=19"},"modified":"2022-09-11T16:32:04","modified_gmt":"2022-09-11T19:32:04","slug":"misterios-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/opequenofugitivo.com.br\/index.php\/2022\/08\/21\/misterios-de-lisboa\/","title":{"rendered":"Mist\u00e9rios de Lisboa"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Elegia do amor e do \u00f3dio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Agora, Senhor, j\u00e1 tudo passou e o tempo aliviou a minha ferida. Poderei aproximar da vossa boca o ouvido do cora\u00e7\u00e3o, para ouvir de V\u00f3s, que sois a Verdade, o motivo por que o choro \u00e9 doce aos desgra\u00e7ados?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Santo Agostinho (Confiss\u00f5es)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de Raoul Ruiz n\u00e3o precisar de nossa esmola, escrever sobre Mist\u00e9rios de Lisboa demanda que comecemos com uma nota de humildade. Talvez seja em torno do perigo da aventura \u2013 j\u00e1 anunciado nas palavras de um homem que fala sobre rumores de um conflito iminente \u2013 que devemos come\u00e7ar. O prudente homem diz ter ind\u00edcios de que a suposta chegada de tropas inimigas na fronteira n\u00e3o passaria de um boato, portanto n\u00e3o h\u00e1 necessidade de p\u00e2nico. Partimos do princ\u00edpio, pois, em sua calma e dominante conversa\u00e7\u00e3o, o filme logo nos coloca em posi\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de um soldado solit\u00e1rio que, regressando do front de batalha, com as cicatrizes no rosto rasgado por cansa\u00e7os e medos, pode enfim voltar a saber quem \u00e9. Ora, \u00e9 justamente esse o dilema do menino Pedro da Silva (Jo\u00e3o Arrais) ao longo de boa parte do filme que aqui analisamos: a descoberta de si a partir de fragmentos reconstru\u00eddos narrativamente. Mas a obra de Raoul Ruiz n\u00e3o deixa pedra no caminho. A hist\u00f3ria de tais mist\u00e9rios \u00e9 uma hist\u00f3ria da fagia: os personagens se alimentam uns dos outros no limiar das rela\u00e7\u00f5es que desconhecem, suas narrativas particulares se costuram quando eles menos creem na possibilidade de uma liga\u00e7\u00e3o de sangue, literalmente convocam o pensamento do espectador a ser participante do fluxo cat\u00f3lico das imagens: entre a culpa e o desejo, entre a dor e a alegria, h\u00e1 uma possibilidade de lograrmos o espet\u00e1culo. O mist\u00e9rio que a princ\u00edpio consistia em contar a hist\u00f3ria de Pedro, menino \u00f3rf\u00e3o que, segundo palavras suas, n\u00e3o sabe bem quem \u00e9, logo se expandiria para v\u00e1rios outros submundos pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>Concebido simultaneamente para a televis\u00e3o como uma s\u00e9rie dividida em seis epis\u00f3dios,&nbsp;<em>Mist\u00e9rios de Lisboa<\/em>&nbsp;\u00e9 baseado na obra hom\u00f4nima do escritor portugu\u00eas Camilo Castelo Branco, nome forte da literatura europeia do s\u00e9culo XIX, e que, como as letras dos grandes criadores de fic\u00e7\u00f5es, mant\u00e9m a perman\u00eancia do texto presente na atualidade. No largo espectro de personagens que v\u00e3o surgindo, os descaminhos n\u00e3o s\u00e3o poucos, as intrigas e as fofocas nada raras, as palavras de vingan\u00e7a a qualquer momento saltam dos l\u00e1bios de personagens cansados da derrota ou sedentos pelo poder. Substancialmente, o espectador reconhece bem a estrutura que o cineasta emprega no seu filme, com o livre tr\u00e2nsito da textura liter\u00e1ria fazendo companhia com a dramatiza\u00e7\u00e3o teatral.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7a nas palavras do menino \u00f3rf\u00e3o que, aos quatorze anos e no af\u00e3 de descobrir algo de sua pr\u00f3pria vida, d\u00e1 in\u00edcio a uma escalada labir\u00edntica que atravessa os corpos de condessas, condes, duques, marqueses, mercen\u00e1rios, aventureiros e amantes. Personagem comum a estas hist\u00f3rias, o Padre Dinis (Adriano Luz) \u00e9 homem de f\u00e9 agostiniana, repleto de contradi\u00e7\u00f5es e desregramentos da juventude que logo ficam evidentes no seu olhar. No entanto, ao contr\u00e1rio de Agostinho, n\u00e3o teremos suas confiss\u00f5es \u2013 pelo menos n\u00e3o formalmente. Todavia, \u00e9 ele quem come\u00e7a a desvelar as ang\u00fastias do menino que antes de ser Pedro da Silva se anunciava Jo\u00e3o (\u201cs\u00f3 Jo\u00e3o!\u201d, como lhe dizem), apresentando-lhe sua m\u00e3e, contando sua hist\u00f3ria. \u00c9 a presen\u00e7a de rumores, tamb\u00e9m j\u00e1 colocados pelo s\u00e1bio popular no in\u00edcio, que ir\u00e1 nos conduzir ao labirinto. O filme pede nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pr\u00e9-rumores e p\u00f3s-rumores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A palavra, a mesma que muitas vezes pode ser acess\u00f3rio vulgar, em qualquer momento do filme escorre lentamente, suavemente, venenosamente. Inclusive como se palavra n\u00e3o fosse, mas elegia de um pecado, de coisa importante que precisa (mais ainda: necessita) ser expurgada, embora colocada no tempo certo, no contexto emocional mais apropriado. Com o Padre Dinis, este homem incapaz de pronunciar qualquer verbo em v\u00e3o, desde j\u00e1 aprendemos que as palavras n\u00e3o ca\u00e7oam \u201cda gente\u201d, apenas pedem nossa paci\u00eancia. Sabemos desde os antigos que elas podem servir (e sorver) tanto aos prazeres agudos da vingan\u00e7a quanto aos sabores ternos de um consolo, e assim a elas nos rendemos. Mas eis que, em Mist\u00e9rios de Lisboa, a palavra \u00e9 continuidade da mesma for\u00e7a que \u00e9 express\u00e3o de uma agonia e tamb\u00e9m de uma refra\u00e7\u00e3o do corpo, quando n\u00e3o do esp\u00edrito. Convite \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o das mentalidades juvenis pelas tens\u00f5es violentas dessas vidas turvas, perplexas diante de novas revela\u00e7\u00f5es que v\u00e3o compondo o registro do drama. Desde esse ponto de vista, podemos dizer com firmeza que os di\u00e1logos e as narra\u00e7\u00f5es em&nbsp;<em>off<\/em>&nbsp;n\u00e3o escapam a compreens\u00e3o espacial que a c\u00e2mera de Ruiz busca operar. Isto \u00e9, a&nbsp;<em>mise en sc\u00e8ne<\/em>, embora n\u00e3o se trate apenas de uma quest\u00e3o mec\u00e2nica, se realiza precisamente atrav\u00e9s da dura\u00e7\u00e3o das frases, das pausas, das respira\u00e7\u00f5es, das gargalhadas e das l\u00e1grimas \u2013 e a\u00ed talvez ele possa ser considerado aquele primo distante do Jacques Rivette de N\u00e3o Toque no Machado (<em>Ne touchez pas la hache<\/em>, 2007). Fica claro que suas mais de quatro horas de dura\u00e7\u00e3o n\u00e3o saciam nossa sede.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do \u201ccanibalismo m\u00e1gico\u201d de um filme como&nbsp;<em>The Territory<\/em>&nbsp;(1981), onde as coisas n\u00e3o eram simplesmente met\u00e1foras da carne, mas um espa\u00e7o desesperador no qual um grupo de pessoas acabou se alimentando de algumas outras,&nbsp;<em>Mist\u00e9rios de Lisboa<\/em>&nbsp;funciona como uma regula\u00e7\u00e3o de lembran\u00e7as, ou seja, sobrevive de subjetividades das pr\u00f3prias narra\u00e7\u00f5es que os personagens realizam. \u00c9 no cruzamento sutil dessas hist\u00f3rias, livre de qualquer pregui\u00e7a por uma montagem que nunca joga a carro\u00e7a na frente dos cavalos, que reside grande parte da for\u00e7a do filme contempor\u00e2neo de Ruiz. Se l\u00e1 nos anos 1980 a quest\u00e3o para o cineasta era um ato antropof\u00e1gico em sua literalidade num filme de imagens duras e personagens quase inacess\u00edveis, aqui enfrentamos o esp\u00edrito de um cinismo, mediado pelo texto, no conflito de uma cordial aristocracia com os desejos das pessoas comuns.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma nota importante a se fazer \u00e9 que, afora qualquer sugest\u00e3o de acontecimentos impl\u00edcitos que o roteiro possa deixar sob os panos, as tramas que vamos conhecendo e os pecados que o filme sutilmente vai soltando se acumulam sem atropelos. Salienta-se o cuidado com as palavras, a exposi\u00e7\u00e3o ponderada dos conflitos, qualidades que mesmo os brutos apresentam. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber isso, pois basta pensar que, num filme com pelo menos uma dezena de personagens importantes, que v\u00e3o e vem na hist\u00f3ria e nos confundem nos tempos, a nenhum falta aten\u00e7\u00e3o e de cada um ficamos conhecendo o suficiente, sem presun\u00e7\u00f5es intimistas ou desafios morais trazidos dos manuais de filosofia. Se chegarmos at\u00e9 a segunda parte do filme, ap\u00f3s quase duas horas de \u201cplanos imposs\u00edveis\u201d que Ruiz tra\u00e7a como se n\u00e3o fosse capaz de errar o deslocamento, \u00e9 porque j\u00e1 n\u00e3o conseguiremos mais desistir antes do fim. Os mist\u00e9rios se bifurcam, fazendo parte de outras hist\u00f3rias, entrando na comunh\u00e3o imaginativa das possibilidades da fic\u00e7\u00e3o se desdobrar em caminhos os mais surpreendentes, com a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o do tempo se desgarrando da nossa raz\u00e3o linear.<\/p>\n\n\n\n<p>A rigor, a leveza do digital d\u00e1 corpo a tudo isso: a c\u00e2mera pode ir a qualquer canto e, mesmo filmando a uma dist\u00e2ncia respeit\u00e1vel, captar com nitidez o desenho dos corpos, sair deles e depois regressar sem perder a luz e a forma. Assim e para al\u00e9m disso, mesmo filmando em digital, Ruiz nos reafirma uma li\u00e7\u00e3o elementar que precede a inven\u00e7\u00e3o das tecnologias atuais e lembra tamb\u00e9m algo de um Tenebrismo, por exemplo,da pintura de um Caravaggio: a fotografia do filme, em termos de cor, decerto n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de manuten\u00e7\u00e3o da luz, da coisa bruta e do efeito imediato, mas motor dos contrastes e das sombras capazes de repousarem na lente e prolongarem a pot\u00eancia da imagem, refor\u00e7ando as fei\u00e7\u00f5es, enriquecendo a forma dos corpos. N\u00e3o h\u00e1 exemplar melhor no cinema recente que seja t\u00e3o carregado de imagens assim. Imagens que desejam alargar as possibilidades de tensionamento do olhar e n\u00e3o encurtar o caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s respostas visuais simplesmente pr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Homem de palavras, homem de armas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De um encontro a outro pulamos no tempo. Os personagens mudam de nome como trocam a roupa. Mas n\u00e3o estamos falando de um filme sem esqueleto e calcado meramente numa defini\u00e7\u00e3o l\u00edrica e po\u00e9tica onde \u201calguma coisa acontece de certa forma e em algum lugar\u201d.&nbsp;<em>Mist\u00e9rios de Lisboa<\/em>&nbsp;certamente n\u00e3o \u00e9 um amontoado de acontecimentos. Neste caso, n\u00e3o podemos desarticular o filme de sua matriz liter\u00e1ria e hist\u00f3rica. Na obra de Camilo Castelo Branco, o contexto n\u00e3o parece algo que possamos desprezar, com os imp\u00e9rios europeus em decl\u00ednio (Fran\u00e7a, Espanha) enquanto outros ganhavam for\u00e7a (o Brit\u00e2nico, o Russo), com guerras e revolu\u00e7\u00f5es tomando conta do velho continente em v\u00e1rias regi\u00f5es. Como pano de fundo, o veneno dos conflitos transnacionais aparece aqui e ali nos c\u00edrculos de fofocas durante os bailes da aristocracia, que sempre ocorrem no momento em que um personagem (geralmente um estrangeiro) ser\u00e1 apresentado ao espectador. Notadamente, a entrada do forasteiro \u00e9 acompanhada pelo narrador, enquanto a c\u00e2mera desliza pelo sal\u00e3o capturando conversas e ru\u00eddos at\u00e9 o encontrar. \u00c9 assim que Ruiz vai compondo os ambientes e introduzindo novas pe\u00e7as no tabuleiro, sempre com uma&nbsp;<em>precis\u00e3o rigorosa<\/em>. Mas h\u00e1 um agravo de import\u00e2ncia reconhecida: ele foi um cineasta extremamente claro na organiza\u00e7\u00e3o das coisas, mesmo em seus filmes mais experimentais. Num espa\u00e7o contempor\u00e2neo em que com frequ\u00eancia saltam elogios a obscuridades \u201cest\u00e9ticas\u201d e \u201cnarrativas\u201d, antes de falecer, em 2011, o chileno radicado na Fran\u00e7a, homem do mundo, j\u00e1 sabia ser subversivo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por acaso, por ser um filme de movimentos constantes (de di\u00e1logo, de c\u00e2mera, de personagens, de hist\u00f3rias, de tempos), n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o extracampo, pois este \u00e9 sempre imediatamente esfacelado pela presen\u00e7a da c\u00e2mera, que vasculha os dormit\u00f3rios, os grandes sal\u00f5es, as ruelas e os jardins n\u00e3o para operacionalizar um artif\u00edcio ou validar a encena\u00e7\u00e3o, mas para estabelecer um encontro preciso e dial\u00e9tico entre um gesto (h\u00e1 sempre algu\u00e9m a conduzir a conversa) e uma recep\u00e7\u00e3o (e quem escuta \u00e9 sempre surpreendido pelas revela\u00e7\u00f5es do interlocutor). A figura do Padre Dinis, que na maioria das vezes \u00e9 o respons\u00e1vel por esse papel de \u201cnarrador criativo\u201d incumbido de dar sabor \u00e0 narra\u00e7\u00e3o, \u00e9 portadora de uma for\u00e7a expressiva, fruto do rosto carregado e da voz embargada que a vida lhe impregnou. A c\u00e2mera, a um s\u00f3 tempo agressiva e carinhosa, n\u00e3o lhe perdoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Entreatos, um filme de riquezas sutis se configura. N\u00e3o um mundo de excessos, mas de equil\u00edbrios. N\u00e3o h\u00e1 falso final, tampouco grandes reviravoltas. N\u00e3o h\u00e1 um ju\u00edzo moral se apressando em dizer do que se trata tudo o que vemos, nem o cl\u00edmax geral para coroar o percurso. Raoul Ruiz bem sabia o que buscava. Agora podemos dizer que&nbsp;<em>Mist\u00e9rios de Lisboa<\/em>&nbsp;\u00e9 o seu Olimpo.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Publicado originalmente na Revista Teorema #23 (dezembro, 2013).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elegia do amor e do \u00f3dio Agora, Senhor, j\u00e1 tudo passou e o tempo aliviou a minha ferida. Poderei aproximar da vossa boca o ouvido do cora\u00e7\u00e3o, para ouvir de V\u00f3s, que sois a Verdade, o motivo por que o choro \u00e9 doce aos desgra\u00e7ados? 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