Cinema e crítica.


Mães Paralelas

Não é possível fugir do passado em Mães Paralelas. No mais recente filme de Pedro Almodóvar a ganhar as telas, no entanto, é preciso o colocar em evidência, do seu núcleo para o exterior, de dentro para fora. Na trama de uma fotógrafa que busca dar a este passado um futuro, desenterrando-o para o enterrar coberto pela História que ainda lhe falta, não existem simplificações de nenhuma ordem. Mas sua tensão política não está reduzida a esse aspecto mais aparente, isto é, esse fio narrativo que está mais explicitamente conectado a um ponto marcado na violenta história espanhola sob a ditadura de Franco. 

Cena a cena, inscritos nas personagens do filme, os gestos humanos estão todos no lugar: certos, errados, arriscados, corajosos, sujos, questionáveis, violentos. E por isso há sofrimento, pois diversas lutas correm lado a lado ao longo do filme: a luta contra uma ditadura assassina que ainda não pôde virar passado para quem a viveu e mesmo para gerações seguintes, a luta também evidente das personagens que se tornam mães (uma vê o pai escapar à responsabilidade da criação, outra é vítima de um estupro coletivo, desconhecendo a paternidade da criança que relutou em ter, mas a quem amou até sua morte prematura) e a luta contra um Estado incapaz de dar aos corpos de seus cidadãos desaparecidos um enterro digno, capaz de preencher os que ficaram com um pedaço da memória que restou. Dá pra se perguntar como um filme tão cheio de passado é também sobre o futuro. Mas qual?

Janis é a fotógrafa interpretada por Penélope Cruz cujos familiares “foram desaparecidos”. Ela encontra no arqueólogo forense Arturo (Israel Elejalde) a possibilidade de dar início a uma escavação para desenterrar os corpos de familiares. Acredita que sabe o local preciso de onde foram enterrados. O trabalho de ambos envolve, de certa forma explicitamente, uma dissecação, uma montagem de pedaços do mundo, de objetos, de pessoas e de vidas sempre mediadas por imagens, por registros materiais que precisam indicar um sentido se não mostrá-los por inteiro. Almodóvar nos diz o tempo todo que está fazendo um filme também sobre o cinema, mas creio que isso já seria assunto para outro texto.

O fato é que, com Arturo, Janis acaba tendo uma filha que, na maternidade, é trocada pela bebê da jovem Ana (Milena Smit), saberão ambas mais tarde. Essa pequena rede de acontecimentos, quando encadeados, dão forma ao todo: a coletividade e as experiências individuais jamais se dissociarão daí pra frente, tampouco o passado conseguirá se desgarrar do futuro. Almodóvar insiste em nos fazer ver isso didaticamente para amarrar o melodrama à sua ficção histórico-política num de seus filmes mais desafiadores e emocionalmente duros. Mas não é para onde o nariz aponta que se deve olhar, parece indicar ao espectador. A esta altura do campeonato, parece ingênuo pensar que Almodóvar tenha arquitetado um “filme de mensagem”.

Sua verdadeira força está antes nos gestos humanos mais puros, nas escolhas que tomam as personagens mulheres do filme (todas, inclusive a mãe de Ana em cada uma de suas cenas) diante da complexidade de cada situação que se apresenta, e só depois na forma com que essas histórias podem se conectar com a História espanhola. Se é óbvio e esperado que todo o estilo do autor esteja dando forma ao filme com todas as texturas que lhes são características, é interessante notar como Almodóvar dedica o filme, através de sua mise en scène, as suas personagens. São elas, com suas trajetórias, que importam. Elas que narram, elas que vão fazer a história se mover e tentar encontrar o seu lugar no mundo.

Suas imagens nos dizem que nenhuma decisão é fácil e que todas abrigam muitas dúvidas e algumas contradições. Mas é preciso decidir. A política radical do filme, a parte que fará sua memória para além das aparências, a parte que restará ilesa para sempre abaixo e acima de toda crueldade e violência do mundo retratado, esta permanecerá.

Dir. Pedro Almodóvar (Espanha, 2021)

Publicado originalmente no Zinematógrafo.

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Comentários (

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